24.09.2020

Pensa numa TPM constante.
É assim que entramos para o time das cinquentonas. O cabelo afina, a cintura engrossa. Os hormônios enlouquecem e, enquanto isso, somos obrigadas a conter algumas das nossas loucuras que não cabem mais. Aparecem novas manchas na pele, delatoras das horas em que, no passado, ficamos expostas ao sol lambuzadas de Rayto del Sol.
Os ossos e os músculos vão cedendo lentamente, para dar vez à massa gorda, que vem com tudo. E a balança, então, aproveita para se vingar de todas as pisadas que, de nós, recebeu esses anos todos e começa a sua greve: não reconhece mais os quilos perdidos.
Manter-se no mesmo peso é a grande vitória, mas, caindo na real, isso é para poucas. Às demais lutadoras não resta outra alternativa senão fazer a própria greve - de fome - para minimizar os prejuízos.
Até pouco tempo, a maioria das pessoas que eu via na TV, no cinema, na política, no trabalho, em shows era mais velha do que eu. De repente, tudo que eu assisto, leio e ouço vem de pessoas mais novas (com algumas exceções, como os meninos Caetano e Gil, a quem pouco importa a idade biológica).
Parece que a ideia de envelhecermos só funciona com novos rostos. Carrego a imagem pausada dos meus amigos de infância, tanto faz se hoje eles têm cabelos brancos, a barriga maior ou novas rugas, continuam com a mesma cara de antes. Quanto a novos conhecidos que têm a minha idade, sempre penso que envelheceram mal e não consigo acreditar que já tiveram quinze anos um dia.
Nunca menti minha idade, apesar de às vezes me vir um esquecimento e eu ter que recorrer a um cálculo matemático. Quase sempre discordo do resultado - pois, confesso, também me vejo com a mesma imagem congelada dos meus amigos - refaço os cálculos, mas a matemática insiste. Afinal, a ciência exata não se dispõe a negociar.
Desde que assoprei as cinquenta velhinhas, ops, velinhas, quando sou perguntada da minha idade, invariavelmente ouço: “Nossa nem parece, você está tão bem”. A perplexidade é evidente, apesar de permanecer velada nos parênteses: “Nossa (coitada) nem parece (que você é velha), você está tão bem (para quem está passando por esse problema).” Não raramente tenho vontade de pedir desculpas pela ofensa, isso quando não sou jogada para o banco dos réus tendo que provar que agi em legítima defesa.
Mas pior do que esconder a idade, é lutar contra ela.
Acontece que inventaram o espelho.
Sempre me neguei a fazer plásticas ou outras intervenções estéticas. Sou uma natureba por natureza, não passo batom e sou bem resolvida. Tão bem resolvida que mudei de ideia imediatamente quando a minha dermatologista me prometeu o milagre da harmonização facial. Harmonização para mim, até então, era deixar as coisas harmônicas, como a própria palavra diz, e isso significa deixar equiparados os efeitos do tempo no rosto, corpo e mente. Ou seja, o contrário de tentar mascarar os sinais da passagem do tempo. O fato é que aceitei levar algumas picadinhas de ácidos e toxinas na face e continuo esperando a tão desejada harmonia nessa luta contra a gravidade.
Conclui que ter cinquenta é quase viver uma adolescência. Ambas são fases de transformações, de bipolaridades, de descobertas, de libertações, em que acontecem importantes ajustes na personalidade. Só que, se na adolescência a personalidade é solidificada, aos cinquenta, ela se sofistica.
É quando o caleidoscópio de identidades se organiza de uma forma mais calma e consistente. Talvez isso se chame experiência. Talvez sabedoria, para aqueles que aproveitaram as experiências para adquirir sabedoria.
Uma citação, atribuída a Henri Estienne, define melhor essa ideia: “Se os jovens soubessem e se os velhos pudessem, não haveria nada que não se fizesse.”
É isso!
lindo e engraçado, real e divertido!